segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Esperança em Minha Casa

A vida estava complemente normal, nada havia de diferente em mim, ou naquele especifico momento do tempo, mas há três dias, notei que uma Esperança entrou pela cozinha. 

Tal qual, como no conto de Clarice, ela é verde, frágil e delicada. Fica transitando pelos cômodos entre, a sala, copa, cozinha e banheiro, sempre no alto. 

Não consigo entender o porquê, das esperanças sempre se manterem no alto de alguma coisa, seja próximo ao teto, ou sobre nossas vidas.

Não tenho conseguido entender do quê a Esperança tem se alimentado nesses três dias: seria ela budista, ou estaria em jejum? Ou como faz a minha Esperança se alimenta somente de sonhos possíveis, regurgitando sonhos desfeitos.

Sempre que me encontro com a Esperança – nesses encontros meio que casuais – ainda que meio constrangido, por ter que me despir em sua frente, quando ela está no banheiro, ou comer em sua presença, quando não estou só na cozinha. Tento fitá-la em seus olhos, em sinal de respeito, e até mesmo adoração, mas lembro de que talvez as Esperanças não tenham olhos, afinal cegam-me, com o simples tilintar de suas patas, o que me causa uma angustia enorme no peito.  

Sigo meu dia, com a certeza de que a Esperança está a me olhar, está a me vigiar, a me suprir, e me desestabilizar. Ademais, tenho ficado cada vez mais preocupado, já faz quatro dias, que a Esperança está aqui: presa, encurralada, de um lado para o outro, mas ainda assim serena. Como eu estou.

Às vezes a Esperança me faz lembrar um pouco de quem eu sou, seus hábitos se parecem com os meus, nada mais que contemplar o tempo, nada além de ver o mundo passar em seus movimentos sutis; como se não quisesse atrapalhar nada que estivesse no caminho, como se não fosse possível nem mesmo, desequilibrar o peso do ar.

Mas as coisas já começam a mudar, a presença constante da Esperança passa então a me assustar, não me sinto mais tão calmo, como me senti, quando nós nos cruzamos, meus pensamentos já se resumem: e se eu não passar de Esperança? E se tudo se resumir em não agitar o ar – em simplesmente contemplar, em posição de adoração – com o simples tilintar das patas...

No 6º dia, já estou desesperado, preciso fazer algo! Penso em um plano: vou colocá-la junto às plantas. Mas será que os pássaros irão comê-la? A Esperança seria devorada sem misericórdia, impiedosamente?

Pergunta número 1: Pássaros livres se alimentam de Esperança? A resposta óbvia é que não sei mais o que fazer... Sinto me encurralado, atordoado... Não consigo mais suportar conviver com a Esperança a definhar, não conseguirei mais encontrar a Esperança de novo em nenhum lugar.

Então, num ato de misericórdia, para que a Esperança não morra de inanição, nem que seja devorada cruelmente por pássaros livres. A pego em minhas mãos, envolvendo-a com delicadeza, não a aperto, não a machuco, a beijo suavemente e agradeço sua visita, sua presença em minha vida; a jogo no vaso sanitário e a vejo descer em uma morte digna.


É o fim da Esperança que habitou em mim, que morou em meu lar, à qual eu prefiro matar, para não ver morrer de dor e sofrimento nesse ambiente hostil, que uma casa pode se tornar.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Doces Penas

Algo antigo, 
quando feito de novo, 
parece novo.
Recriação da própria imaginação.
Devaneios dos tempos em que outrora, 
foste tu meu simples agora.

Quando estava só,
foram seus olhos que me guiaram pela escuridão.
Quando chorei,
por ser ninguém,
não tendo alguém
em seus braços recebi proteção.
Quando gritei,
pela dor que corroía meu coração,
foi a você quem clamei.
Quando estive feliz,
com certeza,
foi a seu lado que fiquei.

Doce é ser amado,
amargo é amar.
Amargo é o veneno da Paixão!
Alastra-se pelo corpo,
desgasta a alma, petrifica o ser.

Doce é a pena dos amantes,
pois sofrem ao se verem
e ao se despedirem.
Sofrem por estar,
e por não estar.

Agridoce é o amor,
dos sentimentos humanos é o mais glorioso.
Faz a alma chorar,
o corpo esfrangalha,
o ser atrapalha.
Doce e venenosa é a pena dos enamorados,
pois mesmo depois de findado,
O amor na lembrança permanece marcado.

Penas eternas – e doces –
são as invenções,
do ser amado, adorado, gozoso
– pesares –
do sofrimento venenoso, contagioso, ilimitado.

Quando só, eu estiver,
não terei seu olhar para me encaminhar.
Quando chorar,
não terei seus braços para me acalentar.
Quando gritar,
não poderei clamar por ti.
Quando estiver feliz,
não serei mais feliz...

Felicidade só existirá ao seu lado,
Com você, Meu amado,
Do Doce Veneno do Amor,
Mais uma dose lhe dou.
A mim,
a Pena Eterna de todos os amantes,
a suave lembrança.



sexta-feira, 8 de abril de 2016

Uma esperança

"Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.Houve um grito abafado de um de meus filhos:- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.- Ela quase não tem corpo, queixei-me.- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.- Ela é burrinha, comentou o menino.- Sei disso, respondi um pouco trágica.- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.- Sei, é assim mesmo.- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.- Sei, continuei mais infeliz ainda.Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada."
Felicidade Clandestina
                                                                               
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