A vida estava complemente normal, nada havia de diferente em
mim, ou naquele especifico momento do tempo, mas há três dias, notei que uma Esperança entrou pela cozinha.
Tal qual,
como no conto de Clarice, ela é verde, frágil e delicada. Fica transitando pelos cômodos entre, a sala, copa, cozinha
e banheiro, sempre no alto.
Não consigo entender o porquê, das esperanças
sempre se manterem no alto de alguma coisa, seja próximo ao teto, ou sobre
nossas vidas.
Não tenho conseguido entender do quê a Esperança tem se alimentado nesses três dias: seria ela budista, ou
estaria em jejum? Ou como faz a minha Esperança
se alimenta somente de sonhos possíveis, regurgitando sonhos desfeitos.
Sempre que me encontro com a Esperança – nesses encontros
meio que casuais – ainda que meio constrangido, por ter que me despir em sua
frente, quando ela está no banheiro, ou comer em sua presença, quando não estou
só na cozinha. Tento fitá-la em seus olhos, em sinal de respeito, e até mesmo
adoração, mas lembro de que talvez as Esperanças
não tenham olhos, afinal cegam-me, com o simples tilintar de suas patas, o que
me causa uma angustia enorme no peito.
Sigo meu dia, com a certeza de que a Esperança está a me olhar, está a me vigiar, a me suprir, e me
desestabilizar. Ademais, tenho ficado cada vez mais preocupado, já faz quatro
dias, que a Esperança está aqui:
presa, encurralada, de um lado para o outro, mas ainda assim serena. Como eu
estou.
Às vezes a Esperança me faz lembrar um pouco de quem eu sou,
seus hábitos se parecem com os meus, nada mais que contemplar o tempo, nada
além de ver o mundo passar em seus movimentos sutis; como se não quisesse
atrapalhar nada que estivesse no caminho, como se não fosse possível nem mesmo,
desequilibrar o peso do ar.
Mas as coisas já começam a mudar, a presença constante da Esperança passa então a me assustar, não
me sinto mais tão calmo, como me senti, quando nós nos cruzamos, meus pensamentos
já se resumem: e se eu não passar de Esperança?
E se tudo se resumir em não agitar o ar – em simplesmente contemplar, em
posição de adoração – com o simples tilintar das patas...
No 6º dia, já estou desesperado, preciso fazer algo! Penso
em um plano: vou colocá-la junto às plantas. Mas será que os pássaros irão
comê-la? A Esperança seria devorada sem misericórdia, impiedosamente?
Pergunta número 1: Pássaros
livres se alimentam de Esperança? A resposta óbvia é que não sei mais o que
fazer... Sinto me encurralado, atordoado... Não consigo mais suportar conviver
com a Esperança a definhar, não conseguirei mais encontrar a Esperança de novo
em nenhum lugar.
Então, num ato de misericórdia, para que a Esperança não morra de inanição, nem que
seja devorada cruelmente por pássaros livres. A pego em minhas mãos,
envolvendo-a com delicadeza, não a aperto, não a machuco, a beijo suavemente e
agradeço sua visita, sua presença em minha vida; a jogo no vaso sanitário e a
vejo descer em uma morte digna.
É o fim da Esperança
que habitou em mim, que morou em meu lar, à qual eu prefiro matar, para não ver
morrer de dor e sofrimento nesse ambiente hostil, que uma casa pode se tornar.
