quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Pálpebras de Neblina

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar.
Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da Praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos 'Cânticos': "Não digas 'Eu sofro'. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram / que era sofrer?" Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia - coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker. Disfarçado, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban - filme. Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de tarde do dia tão idiota que parecia não acabar nunca. Ah! como eu precisava tanto que alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi.
Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega - aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo malpintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja. E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar - exposta, imoral, escandalosa - sem se importar que a vissem sofrendo.
Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia - uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos.
Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha, dor de brasileiro-médio-privilegiado. Fui caminhando mais leve. Mas só quando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais. Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: Carnaval, futebol. E lágrimas. Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo?
Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu "dói tanto", contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou "por quê?", compreendi ainda mais. Falei: "Porque é daí que nascem as canções". E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

Caio Fernando Abreu ABREU, C. F. Pequenas Epifanias. Porto Alegre: Sulina, 1996.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Estado de Medo




Tenho medo da esperança,
 que se esvaí a cada suspiro.
Temo, com pavor, a solidão que fica.
A pena que vejo em teus olhos,
me faz sofrer e lamentar.
O não encontrar.

Tenho medo do futuro: aquele dia depois do amanhã,
Porque o hoje já vivi,
o amanhã está aí,
o ontem jamais retornará.

Temeroso estou à presença,
mesmo quando certo de sua ausência.
Temendo e desconfiando do olhar,
que insisti com o meu cruzar,
sigo por esse caminho,
com medos, anseios e sozinho.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sem mais, nem menos.

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Saudade vem sem avisar,
chega assim: sem mais nem menos.
Lágrimas começam a brotar,
e quando vejo, sem mais, nem menos,
Estou convulsionando em choro,
sinto dores no peito.
E estou pranteando por alguém que já partiu,
sem mais nem menos,

alguém que viveu em mim em outro momento.  

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Invernos Internos

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O inverno está a se aproximar,
eu posso sentir.
Não pelo frio que insiste em ficar,
ou pela neblina que teima em cair.
O inverno está chegando,
dentro de mim.

Vejo o passado futuro,
nos olhos de uma criança.
no olhar, andar, falar,
outro alguém, outro estar.
Algo mudou, imperfeito ficou.  
mas ainda assim está lá;
no sorriso, no agir.
você em outro.
Saudades sem fim.

Enquanto raios lampejam sobre o mar,
em tempos imemoráveis,
observo – quieto –  o inverno chegar.
Na praia de minha solidão,
na beira do mar sem fim,
névoa, neblina, temporal,
o inverno já está em mim.

Em outros olhos está o seu olhar.
Outro alguém, outro mar,
em primavera.
Pra ti inverno não há.

Resta do inverno,
aquele externo,
Intenso, imenso, mas com fim. 
Vestígios que ousaram ficar,
Restaram memorias, lembranças, estórias,
e dessa vez não se resumirá, ou cessará,
não terei em seu olhar, a sorte de estar.
É um novo inverno,
Interno,
que vejo se aproximar.

sábado, 5 de novembro de 2016

Por seus Poemas...

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Queria eu ter algo a oferecer em troca, algo autoral.
De verdadeira beleza, complexidade formal, 
mas não sei se já disse: 
minha escrita é tão somente minha, 
que nem sei porque escrevo. 

Talvez pelo embaraço da mente, 
ou pela canseira das vozes, 
que teimam em continuar a sussurrar.
E eu obediente e ouvinte de mim mesmo, que sou, 
continuo sempre a expor e indispor
esses devaneios surrados e misturados na dor.   

Infelizmente por hora nada tenho a oferecer,
por seus cinco poemas, 
mas agora uma dívida contraí. 
Não sei se é bom, ou é ruim? 
Não sei... 
Talvez me obrigue a escrever: 
sistematicamente, expressivamente, claramente. 
O que ironicamente me soa menos harmoniosamente. 

Talvez à você escreva e conclua peças que já foram criadas. 
Que estão prontas e moldadas, 
e hoje habitam recôncavos perdidos do tempo,
por tempos perdidos demais.
Na mente devaniosa de um simples ouvinte mordaz.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Insípidos



Meu pesar é que hoje não quero uma coleção de boy toys para montar;

Minha infelicidade é que não tenho vontade de comprar o desejo;

Meu infortúnio é que aqueles que me satisfaziam hoje não tem sabor algum;

Minha tristeza é pensar que já tive demais, mas não tive nenhum.

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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Impensado

Ainda que fosse um comentário imperfeito,
um elogio descabido.
Feito com palavras desmedidas e impensadas. 
Somente por ter notado,
e esse simples fato,
uma chama de esperança,
se reascendeu.
Algo que já havia julgado consumido, exaurido, extinguido...
E por mais uma vez,
outra vez,
 sentiu seu coração bater.